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O que está por trás dos ataques a obras de arte em 2022?

Atualizado: 17 de out. de 2022

O quadro de Van Gogh “Os Girassóis'', de 1888, foi o novo alvo de ativistas climáticos. Na última sexta-feira, 14 de outubro de 2022, duas ativistas, de 20 e 21 anos, jogaram uma lata de sopa de tomate na obra, em exposição na National Gallery, em Londres. A obra é uma das mais importantes do mundo, avaliada em mais de 500 milhões de reais. Em seguida, elas se colaram à moldura do quadro e discursaram sobre mudanças climáticas, questionando se arte vale mais do que a vida. As garotas foram presas.




O protesto gerou revolta e dividiu opiniões pelo mundo. A maioria das pessoas não conseguiu vincular a crise climática com o ataque a obras de arte. De fato, tudo parece meio sem sentido, mas não se engane. O ataque a museus é parte de uma ação orquestrada por um grupo de ativistas experientes, bem financiados e que não se importam em ser presos (até porque são brancos).


Crise climática


Os combustíveis fósseis são o maior impulsionador das emissões de aquecimento climático.

Apesar da preocupação internacional com o impacto que a queima contínua desses combustíveis está causando no clima, o governo britânico abriu uma nova rodada de licenciamento para permitir que empresas de petróleo e gás explorassem combustíveis fósseis no Mar do Norte.


Isso porque o Reino Unido está enfrentando uma crise de energia que deve fazer com que 13% da renda de uma família média seja destinada à energia doméstica e ao combustível veicular. Parte do problema se dá pela decisão da União Europeia de proibir a maior parte do petróleo russo até dezembro.


Just Stop Oil


No início de 2022 nasceu no Reino Unido o Just Stop Oil, um grupo de ativistas que querem "garantir que o governo se comprometa a encerrar todas as novas licenças e consentimentos para a exploração, desenvolvimento e produção de combustíveis fósseis no Reino Unido".


O grupo foi planejado como uma campanha liderada por jovens, mas na verdade conta com estrategistas bem experientes de outros movimentos. Uma das formas de recrutar integrantes é visitando universidades e levantando a pauta da crise climática entre estudantes.


As primeiras ações foram ataques diretos a petroleiros. Após duas semanas e meia de ação, o clima ficou tenso e as empresas petrolíferas conseguiram liminares proibindo protestos nos terminais e a polícia começou a agir com mais veemência. O grupo também orquestrou bloqueios a vias públicas com intenção de paralisar o trânsito, picharam a fachada da New Scotland Yard e a entrada do Tesouro (prédio do departamento da economia britânica).


Em menos de quinze dias, os apoiadores do grupo foram presos quase 1.000 vezes.

Não que isso fosse um grande problema, afinal, com financiamento vindo de “empresas verdes” dos Estados Unidos, o grupo possui uma equipe jurídica capaz de conduzir todos os processos judiciais de jovens que vão presos, como o pagamento de multas e suporte àqueles que são liberados da cadeia.


Após cerca de 1.600 prisões de apoiadores, 7 estão presas. A repressão fez com que o grupo desse uma pausa nessas ações e partisse para uma nova fase.


Ataques a museus, galerias e obras de arte


Com intenção de ganhar manchetes e visibilidade, o grupo definiu como alvo museus e galerias de arte. Desde junho de 2022, seis instituições e obras de arte foram atacadas pelo Just Stop Oil:


Em 29 de junho, três jovens picharam a parede da Kelvingrove Art Gallery and Museum, em Glasgow, e dois deles se colaram na moldura de uma pintura do século 19, do artista Horatio McCulloch chamada 'My Heart's in the Highlands'.



Em 30 de junho, dois ativistas se colaram à pintura Peach Trees in Blossom (1889), de Van Gogh, na Courtauld Gallery.


Em 1 de julho, picharam o chão da Manchester Art Gallery e depois se colaram à pintura “Harpa Eólia de Tomson”, de 1809, de JMW Turner.


Dia 4 de julho, eles cobriram a pintura a óleo de 1821 "A Carroça de Feno" , do artista britânico John Constable, na National Gallery, com a versão repaginada da paisagem devastada pelos combustíveis fósseis. Depois colaram-se à moldura da obra.



Em 5 de julho, apoiadores colaram as mãos em “A Última Ceia” de Leonardo Da Vinci, na Royal Academy, além de pintar com spray a parede abaixo do quadro.



Em 14 de outubro, jogaram uma lata de sopa de tomate na obra “Os Girassóis'' de Vincent Van Gogh (1888), em exposição na National Gallery, em Londres.



Segurança reforçada


De acordo com a associação britânica de museus, a Museum Association, a polícia afirma que “é altamente provável que o grupo continue visando obras de arte de alto valor para gerar mais cobertura internacional de notícias para suas mensagens de campanha”. A polícia aconselha que museus e galerias com coleções de arte de alto valor aprimorem o sistema de segurança.


Esse tipo de alerta pode resultar em:

- novos métodos de proteção às obras que as distanciam ainda mais do público;

- procedimentos mais invasivos e demorados na entrada nessas instituições; - ingressos mais caros.


Críticas, revolta e polarização


O grupo vem recebendo críticas. Sua estratégia inicial, de bater de frente com gigantes do petróleo, foi considerada fraca e ingênua. Sua fase atual, de atacar a arte para ganhar as manchetes, divide os círculos de ativistas, já que muitos consideram que esse tipo de manifesto tira a credibilidade das pautas.


O cientista climático da Universidade da Pensilvânia, Michael Mann, disse estar preocupado "Há todo tipo de pesquisa que sugere que essas coisas são um tiro pela culatra. Polariza o público e afasta os que precisamos trazer para o grupo"


Na prática, é o tipo de ação que enfraquece o discurso. Embora a cúpula do movimento afirme não estar interessada em fazer amigos, esses protestos acabam sendo considerados infantis, descabidos e dispersos pela opinião pública.


Reflexão


Embora as obras não tenham sofrido danos permanentes, a arte é um patrimônio cultural da humanidade. É por meio da arte que as histórias do mundo são contadas e parte o coração ver tesouros culturais sendo tratados dessa forma.


Sabemos da potência da arte em provocar reflexões, debates, gerar críticas e ser uma ferramenta ativista muito forte. Imagine o quão potente seria se esse grupo usasse seus recursos para estabelecer parcerias com artistas dispostos a criar intervenções reflexivas e impactantes em lugares estratégicos mundo afora… como iniciativas do mexicano Ruben Orozco, do britânico Banksy e dos brasileiros Vik Munis e Mundano, que usam seu potencial criativo com narrativas engajadas e realmente transformadoras.










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